Thursday, October 09, 2008

O homem a quem não davam corda!!!


João era um miúdo que, como qualquer outro miúdo gostava muito de brincar. Seus pais eram uns pais como outros quaisquer, queriam que ele estudasse para ser alguém na vida. Que se aplicasse, que se cultivasse e só no fim... que brincasse.
O avô de João não era um avô como outro qualquer. Esse sim era diferente, queria que João brincasse e brincasse enquanto fosse miúdo. Teria tempo para ser responsável... dizia ele. Nem sequer conseguia perceber muito bem como é que esta diferença não se fazia notar no comportamento do seu próprio filho (pai de João) que tinha sido um miúdo e jovem muito responsável quando ele a nada disso o obrigava.
Como estratégia para promover a sua filosofia de vida, o avô de João oferecia um brinquedo por cada má nota que ele tirasse na escola. Não era propriamente educativo, mas na verdade o avô de João estava-se completamente a borrifar para isso.
Por outro lado o pai de João oferecia-lhe um brinquedo cada vez que ele brilhava na escola. Isso colocava-o numa posição extremamente priveligiada que era a de receber sempre um brinquedo independentemente do que fizesse, fosse ele bom aluno ou não, o brinquedo aparecia.

Isso tornou João, além de um sortudo com uma quantidade de brinquedos descomunal, um rapaz que podia decidir verdadeiramente o que queria fazer. Se queria estudar ou se queria brincar era sua a decisão porque nenhuma das actividades era mais recompensada do que a outra.
Felizmente para os pais de João (e para o avô também porque concerteza ele não quereria que o seu neto não fosse instruído) o rapaz até optou na maioria dos casos por desempenhar bem a sua função de estudante. E foi num dia de aulas como os outros também, que ele se apercebeu de algo muito importante. Quando questionado pelo professor sobre qual ou quais as colecções que fazia, João não se lembrando de nada mais do que os seus preciosos brinquedos ripostou dizendo que coleccionava brinquedos. A risota entre os colegas foi geral, mas o professor que era um professor à boa velha moda saiu-se com uma resposta em defesa de João que acabou por marcar a vida toda do rapaz. Disse então para toda a classe:
- uma colecção de brinquedos é tão importante como outra qualquer porque através dela podemos fazer uma visita guiada aos tempos, muitos deles encerram o virar da página de uma época. Não tenham a menor dúvida meninos que os brinquedos com que eu brinquei, a vocês vos pareceriam ridiculamente rudimentares - e seguiu dando uma série de exemplos.
Mas João já nem estava a ouvi-los, na sua cabeça tinha agora a frase do professor ... uma visita guiada aos tempos... virar a página de uma época...
Hoje em dia o homem com cerca de 70 anos que se senta na cadeira de rodas à entrada do Museu do Brinquedo (vítima de um acidente cardiovascular alguns anos atrás)lembra-se e fala com paixão de todo e qualquer um dos brinquedos expostos no museu. Como os obteve, de que época eram ou como se deveria brincar com eles (sim!!! porque alguns deles é preciso saber brincar com eles).
É um brilhante contador de histórias que entretém qualquer pessoa. Põe todos os miúdos a rir contando por exemplo a brincadeira que tinha com o seu querido avô, que ao começo de cada dia o fazia tocar com os dedos num reóstato onde apanhava um choque eléctrico e todos os dias ia aumentando a corrente que passava pelo corpo do miúdo só para o preparar para uma vez que apanhasse um choque eléctrico a sério.
Ou de como iam à cozinha da mãe "roubar" o fermento e o vinagre para pôr nos pequeníssimos foguetões de plástico que depois com a libertação do dióxido de carbono acabavam por "levantar voo".
A todos responde com carinho, desde o miúdo que se lhe dirige dizendo "ganda maluco", até àquele que reparando na sua cadeira de rodas e impressionado pela vitalidade de João, lhe pergunta porque é que ele não anda. A resposta sai sempre rápida...
- olha... esqueceram-se de me dar corda.

(Este texto é inspirado na vida e obra de João Arbués Moreira detentor do espólio de brinquedos presente no Museu do Brinquedo em Sintra e que eu pessoalmente aconselho, miúdos, pais e avós a irem ver para poderem depois ter dezenas de recordações para partilhar entre si.)

P.S. - Não se esqueçam de levar um lenço, ou uns óculos escuros para poder esconder "aquela lágrima" ao canto do olho quando virem um brinquedo igualito ao que tiveram em criança.

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