Friday, May 29, 2009

Supervagabundo


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Não lhe parecia possível que aquilo lhe estivesse a acontecer. Ele, a quem toda a gente chamava o “supervagabundo” por causa do seu longo cabelo à “Rick Davies”, ele que tinha sempre uma resposta pronta na ponta da língua, ele que sabia sempre o que fazer e dizer.
Mas ali estava ele imóvel e calado, e quando sentiu a primeira passagem da mão dela pelo seu longo cabelo, arrepiou-se todo. Quando ela se aproximou um pouco mais e ele pôde sentir o cheiro da sua presença sentiu novo arrepio e largou um curto suspiro.
Nem parecia o mesmo homem que há 20 anos atrás tinha sido apanhado com uma groupie nos bastidores do espectáculo dos Supertramp. Quando questionado pelo Roger Hodgson sobre o que é que se estava a passar e perante a insistência da pobre rapariga que achava que acabava de ter relações com Rick Davies, ele respondeu apenas.
- Rick Davies?? Não!! Eu chamo-me Dick Davies e estou com os Supervamp.
Toda esta prosápia descomunal estava agora, “como que”… adormecida.
Ainda mais, agora que ela se tinha encostado a ele deixando-o sentir o volume das suas formas generosas de encontro ao seu ombro.
Ele ficou paralisado a apreciar a plenitude daquele momento de uma forma sensual, mas ao mesmo tempo receosa. É que na realidade ele tinha sempre muito medo do resultado final.
A meia hora que assim esteve passou demasiado depressa e no fim ela disse.
- Já está.
Ele sorriu, e respondeu
- Muito bom obrigado!
E pensou mais uma vez, como detestava adorar ir cortar o cabelo.

Thursday, May 07, 2009

O Azéotropo



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Apesar de ser eminentemente uma cadeira prática, Química Geral tinha tudo para ser um grande pincel. Sobretudo, porque enquanto a todos os outros meus colegas tinham saído trabalhos práticos bem fixes com muitas cores, pequenas explosões e outros divertimentos do tipo, a mim tinha-me saído uma seca chamada destilação. Não fosse a prof. que me tinha calhado como orientadora ser a coisa mais doce do mundo e este teria sido o período mais negro da minha vida de estudante. Em contrapartida, acabou por se revelar como um dos tempos mais interessantes e importantes daquilo a que eu chamo a minha vida.
O nome da professora que tudo me ensinou era Matilde, e tinha cabelos e olhos claros, os últimos do azul mais cor do mar que eu alguma vez tinha visto, o sorriso mais sereno e a voz mais sensual que eu alguma vez tinha ouvido. De resto era uma mulher madura, com um corpo banal (talvez um pouquito rechonchuda) e vestia de um modo juvenil. E tinha na realidade um comportamento também juvenil contrastando com os seus mais de 40 anos …na certa.
Quando me fui apresentar para começar a trabalhar senti logo que havia uma química muito especial entre nós. Com o passar do tempo a relação entre nós foi crescendo (talvez de um modo disparatado) e ela foi-me ensinando tudo o que eu precisava de saber sobre a “destilação”. Destilação era a nossa palavra de código para manifestarmos o desejo de estar um com o outro. Era comum, ela chegar ao laboratório e dizer – Anda… vamos destilar.
Foram tempos loucos e bons, a química que existia entre nós (esta era uma das frases favoritas dela porque na realidade o que nos tinha aproximado tinha sido a química) foi-nos fazendo aumentar a frequência e a intensidade com que “destilávamos”. Até um ponto em que já o fazíamos no gabinete dela (com outros professores no gabinete ao lado), por vezes “destilávamos” no armazém dos reagentes, enfim… a temperatura tinha subido de tal modo que basicamente ... destilávamos sempre.
No entanto, chegou um dia em que aprendi finalmente o que era um azéotropo. Tudo aconteceu após mais uma destilação em situação arriscada. Perguntei-lhe se íamos continuar a “destilar” assim para sempre.
Ela muito séria abanou a cabeça e disse-me – Não, porque temos aqui um azeótropo-
Perante a minha ignorância ela começou a explicar.
- Bom … é assim… eu tenho uma família. Chamemos-lhe o componente A da mistura. Durante muito tempo foi um componente puro, era só um e por isso não precisava de destilar. Depois apareceste tu, chamemos-lhe o componente B. Aí começou a confusão.
Começou também a destilação, só que … -seguiu ela muito séria- vocês formam um azéotropo e por isso eu tenho estado a destilar os 2, mas mais tarde ou mais cedo o componente que existe em menor quantidade vai esgotar, e aí… volto só a ter o componente que existe em maior quantidade.
Olhei para ela com a esperança que ela me dissesse que eu era o componente que não ia esgotar, mas ela continuou
-Olha… por exemplo, o Acetonitrilo e a água formam um azéotropo com uma constituição de 84% de acetonitrilo e 16% água. Tu és o acetronitrilo e o meu marido e a minha filha são a água e apesar de hoje em dia eu estar a destilar com 84% de acetonitrilo e apenas 16% de água, mais tarde ou mais cedo o acetonitrilo vai acabar e aí vai ficar só a água.
Nem acabei de ouvir a explicação toda. Desatei a correr para fora do laboratório e nunca mais lá voltei. Na realidade foi a última vez que destilámos provando que ela tinha razão. Eu acabei por chumbar à cadeira que tive que repetir no ano a seguir com o professor Xavier que era “expert” em corrosão química.
Hoje em dia penso algumas vezes que deveria ter tentado arranjar uma maneira de reduzir o teor em água na mistura, para que nunca se esgotasse o acetonitrilo antes de se esgotar a água, mas na realidade era um jogo no qual a minha probabilidade de sucesso era diminuta.