Relógio por favor pára de contar as horas
que a saudade que sinto em mim, já me devora
Parei de escrever, pousei a viola que tinha ao meu colo e olhando para o relógio, vi que já estava atrasado.
Com um resmungar bem sonoro saí de casa e fui ter com aquela que me inspirava a escrever e compor, que ia partir para uma estadia de uma semana no estrangeiro deixando-me assim só e desamparado.
No caminho ia tentando terminar mentalmente o pequeno verso para o poder escrever no verso do bilhete ou em qualquer sítio que ela ainda visse de modo a que ela não se esquecesse que eu ficava a pensar nela.
Quando cheguei ao pé dela, abracei-a fortemente e a seguir a um beijo prolongado disse-lhe
- Vou ter tantas saudades tuas
Ela respondeu-me com mais um beijo demorado e molhado e a seguir partiu.
Ainda comecei a recitar o pequeno poema inacabado, mas ela já não ouviu. Apenas um velhote que estava ali ao pé me ouviu gritar bem alto
Relógio por favor pára de contar as horas
que a saudade que sinto em mim, já me devora
queria matá-la e apaziguar esta dor
relógio, não contes as horas … por favor
O velhote sorriu e disse
- Isso é a maior idiotice que já ouvi, além de ser uma piroseira de primeira, mas isso já é outro problema.
Fiquei furioso e argumentei com o velhote que ele estava a ser muito mal-educado. Ele olhou-me muito sério e disse apenas:
- Nunca mates todas as saudades que tens. Quando o fizeres deixas de sentir saudades. E o que é a saudade senão a vontade de estar com alguém, se matares toda essa vontade ela deixa de existir.
- Eu cometi esse erro – continuou o homem – e olha para mim… só…abandonado… Pensa nisso. E da próxima vez que estiveres com ela dá graças ao tempo por nunca chegar para matar as saudades todas.
O velhote seguiu caminho e eu fiquei embasbacado a pensar na sua teoria.
Desde esse dia, quando tenho que me despedir, dou-lhe todos os beijos menos um, todos os abraços menos um e deixo sempre algumas saudades para matar da próxima vez.
Ela chegou ao local de encontro, com o seu longo cabelo escuro a esvoaçar ao vento e como habitualmente, chamou
- Docinho, cheguei…
Ele apareceu e correu para a sua Princesa, por quem tinha esperado tanto tempo.
O encontro entre os dois foi tudo o que eram os encontros entre os dois, quente, sensual, doce, intenso e infelizmente curto.
No final do fugaz encontro ela contou-lhe da decisão de seu pai o Rei do reino de Nasai de a mandar numa viagem de cortesia pelos reinos vizinhos na esperança que ela se afastasse do camponês por quem o Rei já tinha ouvido rumores que estava apaixonada.
Distraídos a falar sobre o assunto, nem repararam na bruxa Lígiel que se tinha materializado junto a eles e que sem hesitar lançou um feitiço sobre o parzinho romântico antes mesmo de eles se poderem afastar. Ao mesmo tempo que proferia a frase “Corpum est ad infinitum, sanctuarium al edulcor” (que na realidade não quer dizer nada, mas soa bastante a latim e consegue impressionar qualquer um) rasgou a pele do pobre camponês com a sua unha.
A Princesa saiu a correr fugindo para a sua carruagem e pedindo ao cocheiro que arrancasse para o castelo, afastou-se o mais rapidamente possível.
No dia seguinte, à partida do cortejo real que levava a Princesa à Corte dos Correia (a família real do reino mesmo ao lado de Nasai), assistiu também o pobre camponês cujo ferimento tinha começado já a infectar libertando uma espécie de pus que cristalizava de imediato e que devia feder o suficiente para todas as moscas do reino quererem pousar sobre a ferida. Com receio da reacção da sua amada, ele nem ousou aproximar-se.
Com o passar dos dias o buraco feito pela bruxa má foi aumentando de tal maneira que o pobre camponês adivinhando o fim próximo da sua existência decidiu mandar uma mensagem à sua amada que na sua digressão de Natal na Corte dos Correia tinha já angariado simpatia de todos os nobres casadoiros.
Quando recebeu a notícia que dava conta do estado do seu amado a Princesa decidiu voltar rapidamente para o reino de Nasai, contrariando as ordens de seu pai que a tinha aconselhado a voltar apenas após o Natal.
Quando finalmente chegou ao pé do seu amor já este parecia uma chaga viva e não bastasse o mau aspecto do exsudado da ferida, a presença dos milhares de moscas em volta do camponês tornavam o quadro muito mais horrível.
Quando a Princesa se aproximou do pobre camponês disse timidamente:
- Oh, meu docinho, como tu estás? Vou mandar chamar o médico real.
Batendo palmas ordenou ao cocheiro que fosse buscar o médico do Rei. No entanto, o pobre camponês adivinhando que lhe restavam apenas alguns minutos de vida pediu apenas um beijo à sua amada.
Com repulsa, mas a coragem característica de alguém que transporta nas veias sangue azul, ela aproximou-se e beijou o sítio onde havia menos liquido a verter da enorme chaga que o camponês era.
De seguida fazendo uma cara admirada a Princesa disse
- humm, docinho.
De seguida começou a lamber o corpo do pobre camponês que finalmente conseguiu perceber que ela se deleitava com o liquido que escorria das suas feridas, porque era na realidade um liquido doce, tipo geleia de marmelo. E a Princesa como gulosa que era não podia deixar de aproveitar tanto docinho.
À medida que foi limpando com a língua o corpo do camponês as feridas começaram a secar quebrando-se assim o feitiço que a malévola Lígiel tinha lançado.
A princesa acabou mesmo por curar o camponês à lambidela, e casaram no dia seguinte.
O Rei que não conseguiu evitar dar também umas lambidelas no doce que jorrava do corpo do camponês acabou por declarar que desse dia em diante, o Natal era época de comer doce. Com o passar das gerações e o diluir da tradição, foi-se acrescentando novas iguarias e é por isso que hoje em dia no Natal nos atafulhamos de doces.
Tudo porque ela voltou a casa para o Natal.
Para Harold, aquele era um passeio apenas para desanuviar a sua cabeça.
Em casa parecia não haver já razão para ficar e o passeio tinha ainda a vantagem de lhe permitir ir até à loja de penhores e tocar um pouco de guitarra ao desafio com o puto que trabalhava na loja.
Nesse dia porém, o puto não se encontrava lá, e a substituí-lo estava um homem antipático (provavelmente o dono da loja) que quando se apercebeu que Harold era um habitué da loja, mas que pouco ou nada comprava e apenas utilizava a loja como poiso para as “jam sessions” com o outro maluco, lhe disse que estava proibido de tocar fosse no que fosse, se não comprasse nada.
Harold decidiu então que iria comprar uma peça bem barata, para não dar parte de fraco. Procurou, procurou até que numa das prateleiras mais baixas da velha loja descobriu uma espécie de viola chamada Tanpura, que tinha já a caixa de ressonância partida, mas que estava a um espectacular preço de 3,99€. Com jeito ainda a conseguia reparar e ficava com um instrumento exótico para a sua colecção. Pegou nela e fechou negócio com o usurário.
Chegado a casa pegou na velha Tanpura e começou a esfregá-la para a limpar e poder assim mais facilmente avaliar os danos que ela tinha sofrido. Ao passar numa das rachas com a mão ouviu um som de algo a partir-se e de dentro da Tanpura começou a sair um fumo negro. O seu instinto foi largar o instrumento que caindo ao chão se partiu.
Nesse mesmo instante, o fumo negro começou a tomar forma e em poucos segundos tomou a forma de uma esbelta mulher.
Harold estava embasbacado a olhar para a forma fumarenta da mulher, que apresentava um doce sorriso nos lábios e olhava para Harold com malandrice. Depois, numa voz calma disse.
- Obrigado por me libertares, estava presa dentro dessa Tanpura, faz mais de 300 anos.
Harold balbuciava qualquer coisa imperceptível, enquanto olhava para a mulher e gesticulava intermitentemente entre o chão os restos do instrumento e a mulher como que a tentar explicar a si mesmo o que tinha acontecido.
A mulher disse-lhe então, que se chamava Carmen e era uma génia (ou seja um génio do sexo feminino) e que em sinal de agradecimento lhe concederia 3 desejos. O pobre rapaz ficou estático e perguntou se podia pensar um pouco no que pedir.
E assim fizeram uma combinação, quando ele tivesse decidido o que pedir, bastaria pensar nela, que ela apareceria disponível para lhe satisfazer o desejo.
E desde esse dia, Harold habituou-se a chamar Carmen (pensando nela) e passava horas a falar de tudo um pouco com a mulher, que entretanto aparecia para o ouvir pedir o seu desejo. Vários dias se passaram até Harold fazer o primeiro pedido. E nesses dias ele foi descobrindo uma mulher espectacular, bonita, inteligente e sensual, que estava sempre disponível para estar com ele, sempre com um sentido de humor apurado e uma aura de mistério, características estas que foram fazendo com que Harold fosse ficando apaixonado por Carmen.
O primeiro pedido foi trivial, queria ser rico. Carmen satisfez o seu pedido no mesmo instante, enchendo-lhe a casa de ouro e jóias.
Mas Harold passou pouco tempo a usufruir dessas riquezas, porque nesse momento já só conseguia pensar em Carmen e o quanto queria era estar com ela. Por isso, mais uma vez a chamou e mais uma vez a bela princesa de pele escura e corpo esbelto veio ter com ele e mais uma vez ficou a conversar com ele, ouvindo as suas histórias e contando-lhe as dela. Carmen confessou a Harold que era uma princesa na terra de onde viera e que o seu próprio pai lhe tinha lançado a maldição que a tornara numa génia e a tinha encarcerado dentro da Tanpura. Contou-lhe também que agora que tinha sido libertada da sua prisão, quando satisfizesse os 3 desejos seria obrigada a voltar para a sua terra.
E não passou nem mais 1 dia até Harold formular mais um pedido. Queria que Carmen lhe dissesse se o amava como ele a amava a ela. A resposta de Carmen foi afirmativa e durante os 2 ou 3 dias seguintes amaram-se como se não houvesse amanhã, e o tempo existisse só para eles [Nota do tradutor : eu pessoalmente acho até que não foram 2 ou 3 dias, mas sim 2 ou 3 meses].
Ao fim desses 3 dias (ou 3 meses), deitado na cama disse a Carmen que queria que ela soubesse que ele a amava tanto, tanto, tanto que já não conseguia viver sem ela. Ela sorriu porque era aquilo que ela sempre tinha querido ouvir.
Nesse mesmo instante Harold disse-lhe:
- Já sei qual é o meu terceiro pedido. Quero que fiques comigo para sempre – disse-lhe ele com voz séria e grave, depois sorrindo afirmou
- Assim quebro o efeito da tua maldição que te obriga a voltar à tua terra após satisfazeres os 3 desejos.
Ela olhou então para ele e começou a chorar tentando explicar ao mesmo tempo que se começava a desvanecer no ar.
- Não meu amor - disse Carmen, tu já não tens nenhum pedido e eu já estou a ser convocada para a minha terra, é irreversível.
Harold sem perceber muito bem o que se estava a passar gritava
- Mas eu ainda tinha o 3º desejo, o que é que se passa
A imagem de Carmen foi-se esfumando cada vez mais, mas antes mesmo de desaparecer ela conseguiu ainda dizer
- Tu disseste que querias que eu soubesse que me amavas tanto, tanto, tanto que já não conseguias viver se mim. Esse, sim, foi o teu 3º desejo, meu amor. Fizeste-me muito feliz com esse teu desejo… Adeus
E no instante a seguir desapareceu.
Desde esse dia, Harold passou os seus dias agarrado aos restos da Tanpura, tocando avidamente todas as notas e todas as escalas na esperança que Carmen apareça novamente. Tornou-se a maior tocador de Tanpura, vivo à face da terra e apesar de estar sempre com um semblante calmo, nota-se a angústia de alguém que procura o seu par, em cada nota.
Os seus amigos chamavam-lhe Óstar, isto porque uma vez em tom de brincadeira o seu amigo Rui lhe tinha dito que ele em vez de Óscar (o seu verdadeiro nome) se deveria chamar OSTar porque arranjava sempre uma música adequada para cada ocasião, um pouco como se estivesse a fazer constantemente uma banda sonora de uma vida. O trocadilho estava giro e a brincadeira acabou por pegar.
Óstar (ou melhor Óscar) era um jovem com um vasto conhecimento musical, mas acima de tudo era uma pessoa com uma excelente memória e um enorme sentido de oportunidade, características que lhe conferiam uma facilidade inigualável em conseguir sempre lembrar-se de uma música cujo nome, tema ou letra fossem relacionados com o que se passava à sua volta nesse preciso momento.
Era comum os seus amigos passarem tardes na esplanada de um qualquer café em divertidos concursos a tentar arranjar palavras que ele não conseguisse encontrar em nenhum nome ou letra de música, sem terem sucesso (excepção feita claro ao seu amigo Paulo que recorria sempre ao já célebre “Desarcebispoconstantinopolizar” para tramar Óstar).
Esta faceta de Óstar foi obviamente crucial na profissão que ele iria acabar por escolher: Locutor de rádio. E ainda na casa dos trinta anos, tornou-se o maior locutor de rádio de todos os tempos, com um programa que acumulava sucessos atrás de sucessos, e que consistia basicamente num primeiro instante num telefonema de um ouvinte que em directo dizia o que estava a sentir, o que o preocupava, o que queria…, enfim … só tinha que dizer uma palavra e a partir desse instante, a emissão de cerca de uma hora e meia começava, com Óstar a pôr no ar, apenas músicas relacionadas com o tema que o ouvinte tinha sugerido.
O programa acabava quase por ser um concurso do ouvinte contra Óstar, mas acima de tudo era um cardápio de músicas servidas com um bom gosto inquestionável e a constante pesquisa e actualização de Óstar neste campo faziam desta hora e meia uma autêntica estreia antecipada para muitas das músicas que se tornariam um sucesso nos próximos tempos.
É claro que para Óstar havia temas incontornáveis, como por exemplo quando lhe falavam de amor, “Love of my life” dos Queen, ou quando lhe falavam de saudade “I Miss You” dos Incubus. Mas depois a parte mais gira era quando as relações entre temas e palavras começavam a surgir, que era o caso da escolha que tinha feito para aquele programa sobre o Natal em que tinha incluído o “Last Christmas” dos Wham (um incontornável que era a seu ver uma das melhores canções sobre amor, ou melhor desamor) mas tinha também incluído o “Wishlist” dos Pearl Jam que na realidade falava da Christmas tree, mas acima de tudo fazia a descrição de uma lista de pedidos, e isso ele relacionara com os pedidos de natal.
Com o tempo, e o sucesso do programa, Óstar foi convidado para fazer compilações sujeitas a um tema e que se tornaram em “best-sellers”. O dono da editora discográfica, nem precisava de saber qual era o tema que Óstar iria escolher e Óstar nem se preocupava com a escolha porque o seu estado de espírito era o seu guia na escolha do tema. E cada compilação que ele fez correspondeu a uma fase da sua vida. A fase da sua grande paixão pela mulher com quem tinha casado tinha resultado numa colectânea chamada “Love” a fase de borgas que se seguiu resultou na colectânea “Fun”, o desalento e abandono que experimentou quando a sua companheira o deixou deu azo à colectânea “Lonely”, a fase de medo e paranóia em que entrou de seguida resultaram na colectânea “Scared”, a fase de espiritualidade e religiosidade em que se viu envolvido de seguida deram origem à colectânea “Sacred”. E claro está que houve lugar à colectânea “Love 2”, 3, 4, etc.
Nos últimos tempos, Óstar tinha começado a escolher músicas para a sua próxima colectânea, mas a sua actual companheira (Sara de seu nome), achava-o triste e preocupado. Por várias vezes tinha já perguntado qual seria o nome da nova colectânea, mas ele fechava-se e recorrendo a respostas evasivas nunca chegava a responder.
Um dia aproveitando o facto de Óstar ter saído para ir passear junto à falésia que ficava junto à casa deles, ela procurou e conseguiu finalmente encontrar um papel com as anotações das músicas para a próxima colectânea de Óstar.
No papel começou por ler entre aspas “Desarcebispoconstantinopolizar”, abaixo estava a lista das canções que tinha escolhido,
01 – Join me in Death – Him
02 – Death is not the end – Nick Cave & The Bad Seeds
03 – Tears in heaven – Eric Clapton ...
Sara, sem acabar de ler a lista, saiu a correr porta fora em direcção à falésia. Chegou a tempo de ver no fundo da falésia dentro do azul do mar, uma mancha cor de laranja que parecia a T-Shirt que Óstar tinha vestido minutos atrás quando saíra.
A colectânea “Desarcebispocontantinopolizar” foi um sucesso.
Recostei-me na cadeira e comecei a sonhar acordado. Aos poucos fui adormecendo e comecei a sonhar com a noite anterior. Parecia-me sentir o seu longo cabelo castanho a deslizar nas mãos e o aroma dela a entrar pelas narinas, até que… um grande barulho lá fora na rua, me fez despertar.
Corri para a janela e quando a abri constatei que lá fora a noite tinha caído.
Enquanto esperava pelo tão desejado comboio, ia ouvindo a gravação com a voz de mulher repetir vezes sem conta “O Comboio suburbano com destino a …” e logo de seguida uma outra gravação com uma voz masculina que acrescentava “Na entrada para os comboios é favor respeitar a distância de segurança”.
Finalmente, ao fim de mais de 40 minutos à espera, ouvi anunciar a chegada do comboio pelo qual esperara toda a noite.
Entrei... e lá estava ela sentada no lugar que tínhamos combinado, na carruagem que tínhamos combinado. Olhou para mim, sorriu e fez um olhar apreensivo apontando em direcção às luzes da carruagem que se encontravam quase todas apagadas. Só nessa altura reparei que de facto a carruagem estava quase às escuras.
Sentei-me ao lado dela enquanto as portas do comboio se fechavam. Estávamos sozinhos na carruagem e ela deu-me a mão e começou a falar-me sobre a viagem de comboio e o medo que tinha sentido porque vinha no escuro.
Depois tudo começou a acontecer tão rapidamente que me parecia um sonho.
Ela pegou-me na mão e encostou-a no seu peito. Senti o volume do seu seio redondo, carnudo e pensei que devia estar a chegar ao céu, ela entretanto disse-me baixinho
- Sente só como bate o meu coração
A mim apenas me ocorreram aqueles versos de Alexandre O’Neill,
Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração
que declamei sem grande jeito, mas com muita convicção. A convicção de alguém que sentia que dois corações batiam no seu próprio peito.
Ela inclinou um pouco mais a sua cara na minha direcção e…
O aroma que sentia agora que as nossas caras, as nossas bocas e lábios se aproximavam era divinal. Ela cheirava a canela, cheirava a flores… sei lá eu… cheirava tão bem… cheirava a ela. E quando os nossos lábios se estavam quase quase a tocar, quando o ar que eu inspirava era já o ar que ela expirava… Apareceu o “pica”.
Com uma falta de tacto do tamanho do próprio comboio, interrompeu-nos dizendo
- Os bilhetes por favor!!!
Estava tudo lixado. Aquele palhaço tinha dado cabo de um momento perfeito.
Ainda por cima devia estar a gozar o prato e depois de ter inspeccionado os nossos bilhetes sentou-se no banco mesmo à frente de nós.
Sorria com um ar de gozo, e com notório prazer verificou que tinha conseguido acabar com o momento. Depois disse
- E os senhores vão para??
Completamente fora de mim respondi
- Olhe!!! Eu estava a caminho do céu e só esperava que o Sr. fosse para o lado oposto.
O “Pica” de seu nome Jorge Reis, começou a fazer um grande discurso sobre a educação, a juventude e tudo o resto, e ali se foi deixando ficar até chegar o nosso destino. Ou melhor o dela, que saía primeiro que eu e que se despediu de mim com um singelo beijo na cara dizendo até amanhã.
E eu ainda gramei com o Sr. J. Reis até à estação de Entre Campos que era o meu destino. Ali me deixei ficar sentado apático e a pensar no meu azar. Durante os 10 minutos que ali fiquei sentado, ouvi novamente a gravação da voz feminina e masculina pelos menos umas 6 vezes. Era mesmo chata aquela porcaria. Pensei que ainda mais chato e ruim tinha sido o “Pica” que me tinha lixado. Isto não podia ficar assim.
Fui para casa, liguei-me à internet e comecei a pesquisar. Ao fim de 2 horas já estava a acabar o que era preciso para me vingar em pleno.
No dia a seguir quando me dirigia a correr para apanhar o comboio, via todos os que saíam da estação a rirem-se ou pelo menos sorrirem e percebi que o meu estratagema funcionara. Tinha dado trabalho, mas segundo pude apurar depois, até nas noticias tinha sido comentado que um “hacker” qualquer tinha conseguido entrar no sistema informático da CP e tinha substituído a mensagem de aviso de cuidado com as distâncias nas entradas para o comboio por uma bastante mais original.
Sorri ao entrar na estação, e em vez de ouvir a voz monocórdica do homem a repetir vezes sem conta “Na entrada para os comboios é favor respeitar a distância de segurança” ouvia agora dizer numa voz que não reconhecia (porque a nossa voz nunca nos soa igual quando a gravamos) “Na entrada para os comboios é favor respeitar a distância ao revisor Jorge Reis. Caso ele se encontre na carruagem fuja o mais rapidamente possível”.
Só por volta das 16h30 é que conseguiram voltar a repor a gravação original.
Duas perguntas ficaram ainda por responder: 1ª Deviam pagar a um homem para estar a repetir “Na entrada para os comboios é favor respeitar a distância de segurança” durante o dia inteiro, ou é preferível utilizar uma gravação? 2ª Afinal porque é que a canção se chama "Gaivota"?
João Louro não era um homem muito apreciado pelos seus colegas, e por isso, ninguém ligou muito quando ele chegou um dia ao local de trabalho com uma pose altiva e orgulhosa, exibindo um papel enrolado na sua mão.
A “alto e bom som” apregoou perante os colegas que tinha finalmente conseguido (ao fim de mais de 20 anos a trabalhar como um mouro sem tirar férias nem nada) comprar o terreno mesmo em frente à fábrica onde trabalhavam e ali iria construir a sua nova casa.
A opinião generalizada era que ele era louco, pois enquanto toda a gente se tentava afastar dali e aproveitava cada dia de férias como uma bênção divina, João passava os seus dias na fábrica a trabalhar ignorando os comentários sarcásticos dos colegas que rindo lhe diziam:
- Quando estiver sentadinho na minha cadeira lá em casa a beber um belo café e a fumar um cigarro, vou-me lembrar de ti João e vou pensar … coitadinho do Louro! Tem que ir trabalhar!
João não dava importância aos comentários e sorria…
Os anos seguintes foram (ainda mais) árduos para ele porque a construção foi sofrendo atrasos sucessivos, e todos os imprevistos que se possam imaginar… aconteceram!
Desde a descoberta de umas ossadas de dinossauro nas imediações do seu terreno, que obrigaram à paragem das obras de construção da sua casa até se ter confirmado que os limites do seu terreno não conflituavam com os limites do achado arqueológico, até à descoberta de um antigo depósito de resíduos radioactivos (provavelmente da fábrica onde trabalhava) que obrigou a uma série de inspecções para garantir que os níveis de radioactividade estavam dentro dos limites aceitáveis tudo foi contribuindo para o atraso da construção da casa. Mesmo assim João não parecia muito preocupado, argumentando sempre que, apenas queria aquela casa para quando se aposentasse (o que aliás era já num futuro bem próximo).
Finalmente, chegado o dia da sua aposentação, João estreou também a sua nova casa.
Desde esse dia, era possível vê-lo diariamente às 8 horas da manhã sentado na varanda da sua casa a beber um café e a fumar um cigarro, exibindo um sorriso de orelha a orelha.
Acenava para cada um dos colegas que entrava e quem se conseguisse aproximar um pouco mais poderia até ouvi-lo dizer:
- Coitadinho do Costa! Tem que ir trabalhar!
- Coitadinho do Soares! Tem que ir trabalhar!
- Coitadinho do Mendes! Tem que ir trabalhar!
- Coitadinho do ...
- Amo-te – disse ele enquanto se virava para trás.
No local onde ela estacionara o carro e estivera a conversar com ele, agora apenas conseguia ler na parede a estrofe de uma canção
“You do something to me, that I can’t explain
So would I be out of line If I say
I miss you”
Mais uma vez tinha reagido de um modo estúpido, ela tinha acabado de lhe dizer que até o seu cheiro a enlouquecia e ele apenas ripostara jocosamente
- Então o melhor é eu tomar um grande banho antes do nosso próximo encontro.
Ao sair do carro dela e reconhecendo que a probabilidade de voltarem a estar juntos era muito diminuta dissera apenas …
- Até sempre.
E só ao fim de uns istantes (e de ter andado pelo menos uns 20 metros) é que se virou para trás e lhe tinha dito que a amava.
As suas respostas eram sempre tardias. Ao longo da conturbada relação tinha sido sempre assim.
Quando ela já estava completamente entregue ao namoro, ainda ele andava todo cheio de dúvidas e mas… mas…mas. Mais à frente quando ela já pensava em esquecer tudo o resto e ter um filho dele, estava ele numa fase muito atrasada. E quando finalmente ela decidiu que a relação entre os dois já não dava, estava ele desejoso de constituir família e terem um filho como ela desejara tempos atrás.
Na realidade andava sempre atrasado e a prova estava neste reencontro entre os dois em que tudo se passou exactamente do mesmo modo.
Quando ele finalmente se tinha decidido … já ela tinha partido. Seria assim toda a sua vida? Um atraso permanente?
Ali mesmo se prostrou no chão a chorar por mais uma (provavelmente a última) hipótese perdida de ser feliz e rogou aos Deuses que o fulminassem ali mesmo por ele ser tão estúpido e tão lento a reagir. Tirando a gabardine e abrindo a camisa para expor o tronco nu desafiou a intempérie na esperança que um qualquer raio o atingisse.
Ela tinha acabado de decidir que apesar de não ser o mais adequado o amor que sentia por ele era suficiente para tentar outra vez. Deu a volta ao quarteirão e dirigiu o seu carro para o sítio onde minutos antes tinham estado estacionados a conversar. Nem sequer reparou no vulto que se encontrava na estrada abalroando-o com violência.
Parou o carro e saiu para a noite chuvosa para verificar o que é que tinha acontecido. Qual não foi o seu espanto quando reconheceu a gabardine do homem que tinha ido procurar. Olhou estupefacta para o vulto que jazia no chão incapaz de se aproximar, com medo de saber a terrível verdade.
Nessa altura ouviu a voz do homem dizer
- tinha acabado de decidir que te ia procurar outra vez para te dizer que quero ficar contigo para sempre, felizmente desta vez … não me atrasei.
Agora que tinha chegado a este estado de dependência, lembrava todos os alertas da família, que tinha ignorado. Agora que estava “agarrado” e já não podia passar sem ela, dava razão a todos os que me tinham avisado.
Lembrei o modo como o meu pai sempre referia (quando se falava do assunto) que o problema era experimentar.
Lembrava as minhas primeiras experiências e os efeitos que as mesmas tiveram sobre mim, a euforia, a sensação de algo muito novo e a vontade imensa de correr, de marcar um ritmo que só eu ouvia e experimentar mais.
Depois com a entrada no liceu, veio a possibilidade de experimentar coisas diferentes e a “oferta” aumentou. Muitos colegas estavam na mesma situação que eu e íamos trocando “cenas” para experimentarmos sempre coisas diferentes.
Agora, chegado a este estado de total dependência, e vontade de estar sempre a experimentar mais coisas novas, eu me confesso totalmente e completamente viciado. Sim, sou um musicómano… por favor ajudem-me!!! Preciso de mais e mais música.
Hoje fui ao teatro dos sonhos. Foi brutal…
A peça que apresentavam era “Cenas de uma memória” - A minha memória.
E por isso, durante cerca de 2 horas vi e revi muitos momentos da minha vida.
Vi o passar dos anos ocos, o modo como fiquei preso numa teia (a tua teia),recordei como me aceitaste tal como sou e vi o nosso rito de passagem. Com alguns ri-me, com outros deleitei-me, outros comoveram-me e ainda houve aqueles que me fizeram chorar. Mas com todos, sem excepção, vibrei.
No fim, estava arrasado, mas forte... cansado, mas pronto para tudo. Estava também triste porque me apercebi que só notamos que algo ou alguém nos faz mesmo falta, quando em vez de dizermos
– Epá… faz-me falta!!!
Dizemos
– Fogo… fez-me falta!!!
Mesmo assim, venho contente porque também me apercebi que o espírito continua mesmo depois de termos desaparecido.
Viva o teatro dos sonhos.